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quarta-feira, 22 de abril de 2015

TRAFICANTES USAM RÁDIOS PARA MONITORAR PM NO AGLOMERADO DA SERRA

Quadrilhas do maior conjunto de favelas da Região Centro-Sul da capital utilizam equipamentos de radiocomunicação para vigiar ações da PM. Estratégia prejudica o combate às atividades criminosas na região

A noite de sábado começa com o movimento intenso de consumidores de entorpecentes e traficantes nas bocas de fumo do Aglomerado da Serra, maior conjunto de favelas de Belo Horizonte, na Região Centro-Sul. Os maiores pontos de drogas ficam na Vila Marçola, na Rua Bandoneon, próximo à Praça do Cardoso, e na escadaria da Rua Sacramento, com Rua Guaxupé. Por volta das 19h, a Polícia Militar inicia suas operações. Uma viatura da Rotam chega por um lado, da Região Leste, pela Avenida do Cardoso, e outro carro, do 22º Batalhão (Centro-Sul), vem pelo Bairro Serra. A intenção é cercar as bocas de fumo.

Porém, um quilômetro antes de chegar aos espaços de comercialização de tóxicos, as equipes policiais são vistas por uma rede de rádios dos traficantes. Do alto das lajes dos barracos e usando olheiros a pé que se disfarçam entre os moradores, os criminosos monitoram cada passo das forças policiais e evitam apreensões e prisões. A PM vai embora e o tráfico é retomado, a todo vapor, numa situação que tem sido recorrente. A cena descrita acima ocorreu no dia 11 e está em uma série de interceptações de rádio dos traficantes de entorpecentes à qual a reportagem do Estado de Minas teve acesso (leia as transcriçõesa lado).

Os traficantes vigiam a movimentação dos policiais por meio de rádios transceptores portáteis, conhecidos pela abreviatura inglesa HT e que custam cerca de R$ 50 em qualquer camelô da cidade. São equipamentos não homologados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) com alcance de até 3,5 quilômetros e que podem ser apreendidos. Esses aparelhos têm dado vantagem aos grupos criminiosos que agem no morro e prejudicado a repressão policial.

O sistema de monitoramento organizado pelos traficantes funciona da seguinte forma: uma central de tomada de decisões, que opera no local chamado pelos criminosos de “Praça 7”, recebe as chamadas dos olheiros. O QG está instalado numa boca de fumo da Praça do Cardoso, que também é chamada de “Principal” e “Praça”. Na noite em que as conversas dos criminosos foram interceptadas, os olheiros detectaram a presença de policiais do Batalhão de Rondas Táticas Metropolitanas (Rotam) chegando ao conjunto habitacional do Programa Vila Viva, na Rua São João.


O primeiro alerta foi emitido por um vigia postado numa passagem de pedestres da Avenida do Cardoso, que os bandidos chamam de “Viaduto”. “Principal que tiver na escuta aí, ó. Uma Rotam subindo a (Rua) São João aí, ó. Rotam subindo a São João”. A central informa que tomou ciência do fato e uma olheira é designada para perambular por lá e monitorar os militares de perto.

Minutos depois, outra viatura do 22º Batalhão aparece perto de uma boca de fumo menor chamada de “Pocinho”, em alusão a um parque em área de risco de mesmo nome. “Piou (apareceu a polícia) lá no (Parque do) Pocinho. Entrou no Pocinho. Entrou no Pocinho, Zé. Copiou? Pano quente (a polícia) entrou na (Rua da) Passagem”, informou o sentinela dessa área. A central pergunta como está a visão dos sentinelas e um deles avisa que há policiais a pé, correndo de um ponto para o outro, e que são chamados de “atletas da Olimpíada de Londres” pelos traficantes.

O veículo policial volta a se movimentar e os alertas são disparados de vários pontos. “Aí, ó: pode correr. Pode correr, do ponto (de ônibus) para a Praça 7 (Praça do Cardoso) aí, ó. Galo doido (polícia na área) aí Praça 7, ó. Galo doido, galo doido, do ponto para a Praça 7 aí, ó. (A polícia). Tá subindo aí de bicho (com vontade) aí, ó. Tá subindo de bicho, fío. Tá subindo é de bicho. Do ponto para a Praça 7 é galo doido”. A central então determina medidas para garantir a manutenção da operação de venda de drogas e recomenda “só o necessário”, que significa não enviar muitas pessoas para um mesmo lugar desguarnecendo outros pontos.

Em seguida, a central do crime ordena que olheiros a pé sejam enviados para acompanhar a movimentação dos policiais do 22º Batalhão. “Ô Pocinho, passa a caminhar nesses (perto dos) polícias de a pé aí, Zé!”, comanda a central. O olheiro, com voz adolescente, responde pelo rádio. “Eu tava de caô (disfarçando), tava monitorando eles (policiais) aqui da rua de cima. Eles estão aqui no beco que dá para o Pocinho, tá ligado? Mas tem visão, nós temos visão (da operação)”.

As transmissões terminam com um recado da central, que mostra o quão perto os policiais estavam de uma grande apreensão e de prisões importantes. “Só o necessário aí, gente, que missão dada é missão cumprida. Passa a visão aí, que vocês tão ligados que o Pai (dono da boca de fumo) chegou, né?”.

TRABALHO COMPROMETIDO De acordo com o consultor em segurança pública coronel Wilson Chagas Cardoso, a vigilância exercida pelos traficantes por meio dos aparelhos de comunicação compromete o fator surpresa da PM, permite fuga de suspeitos e a ocultação de armas e drogas. “Para combater isso, só com a fiscalização e apreensão dos equipamentos. A própria PM faz o recolhimento desses rádios quando os encontra, mas até para encontrar esse material é preciso o fator surpresa”, disse.

O especialista diz que o monitoramento da frequência fechada da PM por parte dos traficantes também ocorre e preocupa. “Há anos a PM tenta investir numa rede digital, que é mais segura, mas não tem recursos. Enquanto a comunicação for analógica, será preciso trabalhar com estratégias de silêncio de rádio (interrupção das transmissões quando uma operação se inicia) durante as ações e também fazendo contrainteligência, que é difundir informações falsas para induzir os criminosos a fazerem o que se quer”, afirma Cardoso.

FONTE: UAI

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