Por trás da máscara de cada black bloc há uma pessoa infeliz. A violência deles denuncia esta infelicidade e esvazia o discurso que até determinada altura do ano passado, com o apoio de vaidosas celebridades, ainda suscitava alguma polêmica. Não há causa política alguma por trás das ações de barbárie, apenas egos em busca de satisfação pessoal e tristezas inconfessadas nem a eles próprios, os portadores de tamanha angústia e solidão.
Além das energias mais primárias, não há nada de positivo no ser humano que se alimente da violência. Os fatos recentes eliminam qualquer dúvida: é desamparo e raiva que movem essas pessoas, a raiva de não saber-se, de não encontrar sentido em nada, a revolta contra quem identificam como culpados, sejam os pais ou outra autoridade qualquer. As máscaras e panos escondem mais que rostos, representam antes a própria invisibilidade diante do espelho. Fazer-se temido é uma forma de buscar identidade e reconhecimento. Assim nascem os bandidos, os rebeldes sem causa e toda sorte de irremediados, entre os quais inclui-se gente simplesmente cruel.
Não é preciso conhecimentos profissionais de psicologia social, que não os tenho. Os fatos já são suficientemente reveladores, embora escreva a coluna na manhã de sábado, antes, portanto, das manifestações programadas para o início da tarde. Lembro-me dos protestos de junho do ano passado. Naquela época, a violência foi justificada como ação voluntária para proteger a multidão de manifestantes da sanha opressora da polícia.
A versão caiu logo de saída, quanto se percebeu que as manifestações só deixavam de ser pacíficas depois que os black blocs entravam em cena. Depois disseram que destruíam agências bancárias e concessionárias de veículos para vandalizar símbolos do capitalismo contra o qual se insurgiam. Na última quinta-feira, no entanto, a barbárie atingiu residências e casas de cultura, como o museu Memorial Minas Vale e o Cine Belas Artes. O que vão dizer agora? Que agrediam a cultura e a família burguesas?
A violência já é suficiente para esvaziar de altruísmo e inteligência qualquer discurso político. Se o objetivo fosse coerente com as palavras de ordem contra o chamado “sistema”, o bom juízo recomendaria estimular as manifestações pacíficas que, no ano passado, levaram às ruas multidões surpreendentes e começaram a mudar a agenda política do país. Em lugar disso, pelo medo, devolveram a maioria das pessoas às suas casas. Se existisse uma bandeira política por trás dos vândalos, poderia-se dizer que é de uma burrice atroz. Esvaziadas as ruas, sobraram eles, os ditos rebelados contra o sistema, sejam black blocs, bandidos comuns ou membros do PCC – parceria confirmada por alguns mascarados em recente entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”.
Entre os black blocs, repito, não há um “revolucionário” sequer. Há sim gente precisando de terapia, atenção, conversa especializada ou simplesmente prisão. Se não se dispõem a buscar solução que os tirem do sofrimento, que recaia sobre eles o poder de polícia. Não há outra alternativa: o não precisa ser dito com veemência. O que não pode continuar é esta situação em que cidades inteiras sejam intimidadas e encurraladas pela violência, em que um pequeno grupo seja capaz, pelo terror, de violentar a vontade e o desejo de paz da maioria. Cada um que arque com suas escolhas. Como dizem os Titãs, “polícia para quem precisa de polícia”.
FONTE: HOJEEMDIA -
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